A Internet e o Futebol

29 janeiro 2015

A Internet e o Futebol

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Carma é algo realmente curioso. Aquela teoria de que se você fizer bem a alguém, coisas boas irão lhe acontecer, válido também para o oposto. Bom, acho que no meu caso não aconteceu exatamente assim.

Nunca gostei de futebol. É verdade, me crucifiquem, mas é verdade. Nunca me interessei pelo esporte, não tenho time, nem camisas, não pago pay-per-view, nada. Eu nunca escolhi o futebol mas, contudo, fui escolhido por ele. Iniciei minha carreira no mercado digital através dele e trabalhei durante anos com o esporte, e nunca consegui me libertar totalmente.

Em 1997, decidi criar com meus amigos Michel Schwartzman e Martha Bevilacqua uma das primeiras agências de marketing digital do Brasil, iniciando nossas atividades bem focados em personalidades. Por um motivo ou por outro, fomos cair no futebol. Fiz, então, para dar início aos negócios, algo que poderia muito bem entrar para o roteiro de qualquer série de comédia: liguei para Ronaldo, o famigerado Fenômeno, e lhe disse que havia fechado um acordo com Romário para realizarmos o projeto dos sites.
Ele fechou na hora.
Desliguei o telefone e imediatamente liguei para Romário e lhe disse que já havia fechado com Ronaldo.
Ele também fechou na hora.
E dessa maneira cômica e absurda, iniciei minha carreira profissional nos mundos do futebol e da internet.

O site do Ronaldo foi um sucesso, sendo destaque na Veja e no Jornal Nacional. Inclusive, foi uma das primeiras vezes que o Jornal Nacional falou sobre internet. Confira no vídeo abaixo:

Foi a partir desse momento que comecei a conhecer os diretores de diversos clubes nacionais, além de vários jogadores profissionais. Participava de reuniões, fazia acordos e ainda me via fazendo uns bicos como técnico de suporte em computadores. Imagine a seguinte situação: a internet – ainda discada na época, é bom ressaltar – parava de funcionar na casa de Ronaldo. Quem ele chama? Eu, o cara que fez o site! E lá ia eu, para a residência do Ronaldo, tentar consertar a sua conexão. E como se não bastasse, tínhamos apenas uma linha de telefone na agência, que era a mesma da internet. Ou seja, se eu estava fechando negócios pelo telefone, não conseguia subir imagens e conteúdo no site. Se estava atualizando a página, não poderia vender nada.

Pouco tempo depois, me tornei Diretor Geral América Latina no segmento online da Umbro, o site umbro.com. Comandei também o portal americano sobre esportestodosport.com, que possuía um grande foco em futebol. Ao mesmo tempo, produzia diversos sites para grandes clubes nacionais, e passei a vendê-los para o portal e, quando ele faliu, fiquei com todos os direitos exclusivos digitais dos maiores times do Brasil, como Flamengo, Santos, São Paulo e Atlético Paranaense. Curiosamente, essa era uma época na qual não se fazia muito dinheiro com esse negócio, simplesmente porque não era um negócio. O business digital, ainda mais voltado para o esporte, só surgiu de alguns anos para cá. Contudo, quando me dei conta, estava viajando para Seattle com Ronaldinho Gaúcho e seu irmão e empresário Assis em busca de fechar mais alguns negócios.

Em alguma dessas viagens, o carma me visitou novamente. Fui para a Inglaterra e, ao desembarcar do avião, fui recepcionado por alguns cavalheiros muito bem vestidos. Um deles me disse: “Você vai conhecer Sir Dave Richards, portanto aprenda como se dirigir a ele propriamente.” E então, durante todo o trajeto do aeroporto ao hotel, recebi uma verdadeira aula de como tratar um lorde inglês. Quais adjetivos evitar, quais pronomes utilizar, apertos de mão, olhares, postura e tudo mais que outrora poderia me fazer parecer desconfortável, mas percebi que seria mais do que essencial naquela situação.

Chega, por fim, o momento de encontrar Sir Dave Richards, que só então fui descobrir ser o chairman da Premier League. Um verdadeiro gentleman. Me tratou como se eu fosse o presidente de um dos maiores torneios do mundo e ele, um mero negociador de jogadores. Por motivos que até hoje me fogem à razão, caí em suas graças. Sir Dave começou, então, a me enviar a diversos clubes da Europa para vender e negociar jogadores brasileiros. E eu era um desastre.

Nunca consegui decorar as posições em que atuavam. Até hoje não sei a diferença entre um lateral esquerdo, um ponta esquerda e um ala esquerdo. 4-4-3, pra mim, sempre foi o final do meu telefone. Eu chegava nos times com a lista de jogadores, mas realmente não sabia como vendê-los, esquecia suas características minutos após ter lido sobre elas. Até que entraram os animais no meio. Foi nesse momento que percebi que tinha que largar o futebol de vez, pois estava, literalmente, vendendo Pato por Ganso.

E dessa maneira louca e conturbada, minha passagem pelo mundo do esporte se encerrou. Foram alguns anos intensos e de muito aprendizado mas, no fim, o carma venceu. “Receba algo de ruim, e você fará coisas boas”, o sábio diria se me conhecesse. Realizei o sonho de milhões de brasileiros: conheci os maiores nomes do futebol brasileiro. Ronaldo, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Cafú, Zico. Tudo por causa do futebol. E no final das contas, o que ele me trouxe de bom foi, simplesmente, tê-lo abandonado, para seguir minha vida nesse mundo igualmente insano da internet.

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